Uma mosca na parede
Chamo-me Laura. Sinto-me mãe.
Estou há tanto tempo debaixo do chuveiro e não há forma de abrir a água.
Olho para o espelho a dois metros de distância e alegro-me porque estou no ângulo perfeito para me ver.
Para o ver, dentro da forma perfeita de uma barriga que me faz mãe.
Nunca como agora tive tanto orgulho nas minhas formas. Esta é a barriga da minha vida.
Passo a mão em sussurros ondulantes que vão falando baixinho para a minha pele materna. Para a barriga.
Sou uma mulher que, pelo que vejo no espelho, é a mãe perfeita.
Que me asfixia.
Está uma mosca na parede que não se mexe.
A água não vem.
Abraça-me…
- Estou preparado para o que decidires. A minha vontade é viver contigo para sempre. Com vocês. Fazer com que resulte. Não quero impor a minha vontade nesta decisão, mas também não me quero desresponsabilizar. Claro que tenho dúvidas… Mas estou preocupado com o tempo... Temos que decidir rápido...
(Vou pegar neste cinzeiro e vou atirá-lo à tua cara. Quero que morras tu, em vez dele.
Que sabes? Que dizes? Ele é meu, tu não o sentes. Não podes saber.
E não acredito por um segundo que não queiras fugir. Sinto-te cobarde.
Abraça-me!)
Não consigo pensar noutra coisa. Salva-me. O que farias se fosse contigo? Toda a vida contra e agora penso em…
- Conheço-te. Fazes parte de mim, amiga. Não sigas… Tu não estás preparada. Tudo se esquece com o tempo e eu vou estar lá contigo. Não estão preparados, vocês.
(Alguém vai contra alguém atrás dela. Alguma coisa cai e ficam três - talvez quatro - pedaços disformes e sujos. Barulho. Café no chão, na roupa - na pele - e um “desculpe” para o ar. Bem feito! Puta! Como me trais assim?)
O espelho de novo.
As contas. Dinheiro.
A barriga, vista de lado. A mão, em círculos em cima da mãe.
Juntos, temos mais condições que muitos casais alguma vez terão.
- Condições? Cala-te! A minha economia é a da dor… apenas a da dor. Deixa-me em paz a vê-lo...
(Há dias que não penso noutra coisa, apenas nisto, que me consome.
Na rua, no trabalho, vejo que me observam e sabem no que penso, no meu medo. Na minha pouca coragem.
Não valho nada se pensar nas condições. Não é maternal.
O meu leite seria suficiente)
Água em cima da mosca que está na parede, será que a faz voar? Quero ter água nestas mãos em forma de concha. Pena ter mãos mas não ter a água. Esta mosca preta, também o faria?
Desculpa desiludir-te. Tinha que falar contigo, não sei como aconteceu.
Mas o pior não é isso… O pior é agora.
O pior é o que sinto, agora.
Ele não é o homem da minha vida e eu sei-o.
- Faz. Também o fiz na tua idade.
(Uma mãe é um exemplo, um modelo.
A minha é. Era.
Porque me disse? Porque me sinto tão mal por sabê-lo?
Porque o fez?
Um irmão…)
Está uma mosca na parede que não se mexe.
A água não vem. E eu quero limpar-me.
Água finalmente. Água.
O Tiago teria hoje 4 anos.
Eu faria de novo.
Eu. A mosca acabou de voar e eu sou livre. Feliz.
E Domingo digo que sim.
Estou há tanto tempo debaixo do chuveiro e não há forma de abrir a água.
Olho para o espelho a dois metros de distância e alegro-me porque estou no ângulo perfeito para me ver.
Para o ver, dentro da forma perfeita de uma barriga que me faz mãe.
Nunca como agora tive tanto orgulho nas minhas formas. Esta é a barriga da minha vida.
Passo a mão em sussurros ondulantes que vão falando baixinho para a minha pele materna. Para a barriga.
Sou uma mulher que, pelo que vejo no espelho, é a mãe perfeita.
Que me asfixia.
Está uma mosca na parede que não se mexe.
A água não vem.
Abraça-me…
- Estou preparado para o que decidires. A minha vontade é viver contigo para sempre. Com vocês. Fazer com que resulte. Não quero impor a minha vontade nesta decisão, mas também não me quero desresponsabilizar. Claro que tenho dúvidas… Mas estou preocupado com o tempo... Temos que decidir rápido...
(Vou pegar neste cinzeiro e vou atirá-lo à tua cara. Quero que morras tu, em vez dele.
Que sabes? Que dizes? Ele é meu, tu não o sentes. Não podes saber.
E não acredito por um segundo que não queiras fugir. Sinto-te cobarde.
Abraça-me!)
Não consigo pensar noutra coisa. Salva-me. O que farias se fosse contigo? Toda a vida contra e agora penso em…
- Conheço-te. Fazes parte de mim, amiga. Não sigas… Tu não estás preparada. Tudo se esquece com o tempo e eu vou estar lá contigo. Não estão preparados, vocês.
(Alguém vai contra alguém atrás dela. Alguma coisa cai e ficam três - talvez quatro - pedaços disformes e sujos. Barulho. Café no chão, na roupa - na pele - e um “desculpe” para o ar. Bem feito! Puta! Como me trais assim?)
O espelho de novo.
As contas. Dinheiro.
A barriga, vista de lado. A mão, em círculos em cima da mãe.
Juntos, temos mais condições que muitos casais alguma vez terão.
- Condições? Cala-te! A minha economia é a da dor… apenas a da dor. Deixa-me em paz a vê-lo...
(Há dias que não penso noutra coisa, apenas nisto, que me consome.
Na rua, no trabalho, vejo que me observam e sabem no que penso, no meu medo. Na minha pouca coragem.
Não valho nada se pensar nas condições. Não é maternal.
O meu leite seria suficiente)
Água em cima da mosca que está na parede, será que a faz voar? Quero ter água nestas mãos em forma de concha. Pena ter mãos mas não ter a água. Esta mosca preta, também o faria?
Desculpa desiludir-te. Tinha que falar contigo, não sei como aconteceu.
Mas o pior não é isso… O pior é agora.
O pior é o que sinto, agora.
Ele não é o homem da minha vida e eu sei-o.
- Faz. Também o fiz na tua idade.
(Uma mãe é um exemplo, um modelo.
A minha é. Era.
Porque me disse? Porque me sinto tão mal por sabê-lo?
Porque o fez?
Um irmão…)
Está uma mosca na parede que não se mexe.
A água não vem. E eu quero limpar-me.
Água finalmente. Água.
O Tiago teria hoje 4 anos.
Eu faria de novo.
Eu. A mosca acabou de voar e eu sou livre. Feliz.
E Domingo digo que sim.

1 abraço(s):
Também o meu bebé teria hoje 4 anos... Penso muitas vezes nel@, às vezes muitas vezes no mesmo dia... Como seria o seu sorriso? E o som das suas gargalhadas?
Sinto falta do meu bébé...Mas foi melhor assim... E no Domingo disse sim...
f.
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