Terça-feira, Junho 02, 2009

casa nova... com cortinas a deixar entrar a luz

ao abraça-me está agora em http://assimquepuderesabracame.wordpress.com

Terça-feira, Abril 08, 2008

Enquanto estive desaparecido...

...uma das coisas que fiz foi apaixonar-me perdidamente. Muito bom! Não há nada melhor que este deslumbramento! A perda irresponsável do controlo das coisas. Marisol, do outro lado do oceano, eu que loucamente te amo, aqui declaro a minha inimputabilidade!*







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* à lamechice também...

Domingo, Março 16, 2008

Apareço noivo

E se houvesse um movimento inexplicável que fazia dela e de mim, do sim e do anel, do futuro todo daquele momento, a possibilidade mais feliz do mundo?

16 Março 2008, LA

Sábado, Novembro 03, 2007

não testemunhado #3



Ingmar Bergman - Saraband sobre o interesse do que não é visto.






Pode ser que ele tivesse razão...


Terça-feira, Setembro 25, 2007

A arte do desaparecimento #2

Olha! E não é que desapareci mesmo?!
Terceiro passo: chamo-me Pedro Mota e, como todo o mundo, gosto de ser abraçado.

Quinta-feira, Maio 24, 2007

A arte do desaparecimento

«Faças o que faças, quer te escondas ou não, irás desaparecer. "Chamo-me Erik Satie, como todo o mundo", dizia Satie. Esta frase resume a minha noção de personalidade. Ser Satie é ser irrepetível, quer dizer, procurar uma forma própria de desaparecer até ao triunfal anonimato, onde o singular é propriedade de todos.»

Enrique Vila-Matas, Ípsilon, 16 Fevereiro, 2007

Erik Satie

Terça-feira, Maio 22, 2007

Às vezes, quando finalmente ganhamos coragem, é já tarde demais *

Morte em Veneza Luchino VISCONTI, 1971
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* a propósito de um convite recente para ir a... Veneza, por exemplo

Sexta-feira, Maio 04, 2007

Gestos

– Mas nunca lhe perguntei isso – lembrei-lhe, enquanto passava preguiçosamente a mão pela cabeça do cão – e se tivesse perguntado a resposta teria sido sim.

– Olha que ela a mim nunca mo escondeu. Queres outro palmier? – timidamente, o meu avô alcançava outro palmier – ela dizia-me e eu acreditava.

– Não obrigado, come tu – respondi-lhe, alertando depois – não tenho a certeza se ela te dizia tudo. – a tarde passava lenta e o calor esforçava-nos sobre a limonada mais depressa que gostaríamos. O cão, preguiçoso, dividia-se entre adormecer e pedir mais festas.

E o meu avô: – A gente não tinha segredos. Lembras-te dos teus primos? Ela sempre os detestou – um aroma familiar chegava lentamente da cozinha, insinuando memórias distantes – hmmm ora aí estão os pudins… lembras-te que bem ela os fazia?

– Sim! Mas nunca os comi com o mesmo gosto do meu pai.

– Ahhh… ele comia-os aos pares. Três de uma vez!

À medida que a tarde passava, rotineira – sempre e outra vez Quinta-feira –, pensei em como o tempo é violento, em como eventualmente nos apaga, a nós e a tudo o que gostamos. O tempo, irreversível, apagando tudo excepto as marcas.

E o meu avô: – E o nosso Benfica, lá vai, né?


Neto Pedro e avô Álvaro, conversando por gestos e expressões, sobre Gracinda, a avó querida.






Quinta-feira, Maio 03, 2007

"Não é bem assim... até tenho dormido pouco" | Madrid, 8h10

Porque é que de manhã não tenho dúvidas que durmo pouco e depois, à tarde, tenho a certeza que durmo demais?

Contas simples alertam-me para a conclusão assutadora - e ao meu amigo na Alemanha isto sempre lhe fez confusão - de que dormimos quase um quarto da nossa vida. 15 anos? 20 anos? ppfff, o desperdício!!

Precisava de me lembrar disto quando acordo. Infelizmente a memória é selectiva e viro-me sempre para o outro lado, meio derrotado, meio displicente. Com todas aquelas meias-horas já tinha acabado o mba...

Quarta-feira, Maio 02, 2007

Sexy dots and stripes go well with rain in Spain

Roy Lichtenstein - De principio a fin
Fundación Juan March, Madrid

Sábado, Abril 28, 2007

Ler o título e depois sentir

Hoje houve outra bomba no Iraque. Pelo menos 55 pessoas morreram.

Fico sempre perplexo quando paro para pensar nisto, o que é, temo confessar, raro: a leveza com que leio cada título sobre novo um atentado.

Iraque. Palestina. Israel. Indonésia. Argélia. 55 mortos. Centenas de feridos graves. Crianças. Idosos. A indiferença. Como túneis a serem inaugurados. Ataques suicidas. O caso da Independente. Milhares de desaparecidos, como eu, como tu, perante o meu desinteresse.

Sofrimento, depois sangue, e depois nada. "Mais um".





“Alguém (onde foi?) dizia precisamente isto: quando explode uma bomba as pessoas antes de morrerem desaparecem.”
Gonçalo M. Tavares, “água, cão, cavalo, cabeça” pág. 46, Editora Caminho

Segunda-feira, Abril 23, 2007

Desempenho

Miguel Bustamante saiu do escritório do seu chefe depois de 2 horas e cerca de vinte minutos.

Nunca tinha feito nada para além do não sentimento e agora teria que procurar um novo emprego. As coisas estavam difíceis para encontrar um trabalho decente... Todos queriam alguém que sentisse verdadeiramente.

Ligeiramente apreensivo pelo futuro, conseguiu manter a postura profissional - no escritório, não sentir nada. Caminhou devagar até à sua secretária, guardou a fotografia da mãe, Cármen Bustamante, e foi-se embora num impecável vazio de pensamentos e sensações. Um aprumo.


Tinha sido um erro ter-lhe respondido «na verdade, chefe, foi a primeira vez que me senti assim…»



Sábado, Abril 21, 2007

Mistura

Eu sei. Eu também tive saudades.
E gosto de te ver como nunca.

Não gosto de promessas, mas sinto a predisposição para uma maior presença. Mais disponível.

Para te dizer a verdade, a um mês de distância dos próximos exames, sinto-me assim como uma mistura de Mary Poppins – sempre alegre, meio suja, mas sobretudo capaz de voar sobre os prédios de Madrid – e um iogurte natural, daqueles açucarados. Natural e doce.


E penso também que, para além, talvez, de uma queda enquanto descemos as escadas a correr, não haverá nada mais desconsolante – e no entanto gracioso – que o comentário anónimo.

Quarta-feira, Março 14, 2007

Ernesto Trevino

Cozinha para dois, não vá ele ter fome. Levanta-se uma hora antes, dá-lhe tempo para a barba. Deita-se vinte minutos antes, aquece-lhe os lençóis. Não tira do futebol, pode ser que lhe interesse. Lê as notícias alto, ele sempre foi meio mouco. Sem visitas aos Domingos, ele não tem paciência. Não fala com o filho, ele nunca aprovaria. Engoma-lhe as camisas, lava-lhe os fatos, cose-lhe as meias. Não tranca a porta, ele sempre foi desconfiado. Senta-se, se ao lado estiver vazio. Só se levanta quando ele quiser. Vive enquanto ele estiver. Está viúva, Laura Trevino.

Madrid, Janeiro 2007

Domingo, Março 11, 2007

Gritar

"Acordem!!! Há vida no mundo para além de Madrid!!!"
É a vontade que às vezes me dá.

Queres ver...? O meu lúcido e querido companheiro de armas em Madrid torna-se apoiante bávaro do Bayer Munich na 4ªFeira e, no Sábado, eis que é hincha ferveroso do Barcelona. Eu desconfio de coincidências, e por isso diria apenas que ele percebe de futebol. Mas rapidamente tenho que concluir que não é bem isso (sendo ele do Sporting) e que apenas lhe apetece gritar:
"Acordem!!! Há vida no mundo para além de Madrid!!!"
Como a mim.

E este post até nem era sobre futebol...

Terça-feira, Março 06, 2007

O meu beijo

Eu sei que ele é famoso, grande fotógrafo, enfim, mas às vezes, sobretudo quando, emocionado e esperançado, os imagino a todos a correr e brincar no jardim lá de casa - serão três ou quatro, no mínimo - fico com a impressão que o meu beijo é melhor que o dele.
Gijón, Fevereiro 2007

Segunda-feira, Março 05, 2007

Enquanto recuperava a postura...

perdida ao ver Jang Seung-up procurar renovação (ou vinho) em cada pincelada de pássaros, montanhas ou rios coreanos - e pareceu-me que encontrava sempre...

Chi-hwa-seon Im Kwon-taek
Embriagado de Mulheres e de Pintura (2002)

...dei de caras com Kiarostami a tentar fazer o mesmo

150 anos depois.

"Five (dedicated to Ozu)" Abbas KIAROSTAMI

Quinta-feira, Março 01, 2007

A rua dele (ou Praga, de novo)

É com bastante ansiedade que Pedro vai à sua rua pela última vez. “Última vez” soa sempre demasiado dramático, mas assim é. Durante os treze anos que foi senhor daquele espaço, todos os dias visitou os seus dependentes. O ritual cumpriu-se religiosamente, todas as manhãs. Tratava-se afinal, de dar o seu contributo para o bem-estar daquela gente. A equipa do restaurante, os residentes das casas, a dona da papelaria, os visitantes do jardim. Enfim. As responsabilidades de um dono.

Agora que se prepara para assumir a sua nova rua - Praga é uma cidade mais fria -, Pedro preocupa-se com o futuro daqueles que, com o tempo, soube conquistar. A verdade é que, ainda que tentem dissimular a obediência cega com que lhe seguem, nunca haverá melhor que Pedro para aquela rua. Teme pelo novo dono e pelas distâncias que ele não saberá vencer. E claro, teme também a saudade. Paciência. Por vezes, é o que te diz Pedro, é preciso saber abdicar. Mas eu acho que se não fosse por Praga…


¡Buenos dias! ¿Lo de siempre, niño? ¡Oh no! ¿Praga, otra vez?
- mmm

Madrid, Janeiro 2007

Quarta-feira, Fevereiro 21, 2007

Obstinação

Em Angola, e decerto noutros países, ainda se vê acreditarem que a fotografia rouba a alma.
Experimentei diversas vezes o medo e a desconfiança nas vítimas de singular assalto.

O gozo infantil de roubar. Com cócegas e tudo.



















Decidi, um ano depois, exercitar esta habilidade.
Não haverá ninguém mais fácil de roubar que eu próprio. Ligeiro.

Que boa surpresa foi descobrir como é difícil.
Oh, a obstinação que é necessária para me roubar a alma!!
Felizmente consegui.

De forma que agora, e durante seis curtos (mas ponderados) dias, vou andar por Madrid desalmado.
Estou esperançado em conseguir entender melhor seis coisas. Pelo menos o arroz já está a sair melhor.

Domingo, Fevereiro 18, 2007

Hoje disseram-me que ficámos sem ti.

E agora, enquanto pergunto o que ando eu a fazer com os meus dias, digo-te que o único medo que tenho da morte é de vê-la chegar sem ter vivido tudo. Tu não viveste tudo. Tu, que tanto valor davas a tudo o que tinhas (e tinhas tanto nesse coração enorme) haverias de querer que eu seguisse sorrindo. Porque sorrias sempre.

Não consigo, desculpa.

E agora, enquanto me apetece desistir de tudo, digo-te que te hei-de ver de novo, e como em todos aqueles dias, me hei-de comover contigo outra vez, em cada nova conversa, em cada novo carinho.

Adeus Susana.

Quarta-feira, Fevereiro 14, 2007

não testemunhado #2

Talvez por se sentir num dia especial, Valentim resolveu visitar-me durante um intervalo das aulas. Como sempre, apareceu do nada. Parece quase impossível como sempre aparece do nada. Mas também te digo que não há nada mais natural.

Não te vejo feliz… Sabes que este é um dia para celebrar a alegria do amor?
- Mas Valentim, pois se eu sei exactamente a forma do meu amor. Sei desenhá-la. A forma do cabelo, da cintura e dos pés - sei as feições dela, sei os seus sorrisos, sei o que me diz - e o que gostaria de me dizer (um dia... se ela ao menos conseguisse). Também sei porque gosto dela ou o que vejo nela - e sei como lhe descrever. Até sei porque a vou trair, eventualmente. Eu sinto-a. Mas não a conheço. Então, pergunto-te - e perguntei-lhe:
"Onde está a alegria? Dar-se-á o caso de ainda não a ter testemunhado? Ou a ela...?"

Valentim virou-me as costas pensativo e demorou-se até à saída. Antes do fim, olhou-me e pareceu-me ouvir: “não sei se estás disponível para amar”.

Depois, não posso afiançar que sucedeu desta forma, mas julgo que o vi subir a Calle Serrano abraçando os sábios gostos e estética de Wong Kar Wai enquanto discutiam cenas de um filme sobre os meus amores. Uma curta.


In The Mood For Love Wong Kar Wai

(cena excluída)

Terça-feira, Fevereiro 13, 2007

aaah, não fazer nada

Nestes dias, tenho que te dizer, sinto plena liberdade para não fazer nada.
Inactividade. Se me apetecer, claro.


Vá, diz lá, baixinho: i-n-a-c-t-i-v-i-d-a-d-e.

Se eu decidir ficar parado o dia todo - ou, vá lá, no máximo, ir beber um café, fumar uns cigarros e terminar o
Sándor Márai que me tem mantido distraído - digo-te: que ninguém faça um som; uma cara má; um revirar de olhos; um suspiro de reprovação.

Plena liberdade. É o que sinto por estes dias em Madrid.
Não estar comprometido com nada nem com ninguém.
Só comigo.

Talvez seja por isso que, quase sempre - excepto em certas e especiais ocasiões - faço como te passo a descrever: ensonado, levanto-me devagar, coço a careca, aperto a cara, esfrego os olhos. Não necessariamente por esta ordem.

E acabo por ir.


Sexta-feira, Fevereiro 09, 2007

Uma mosca na parede

Chamo-me Laura. Sinto-me mãe.


Estou há tanto tempo debaixo do chuveiro e não há forma de abrir a água.
Olho para o espelho a dois metros de distância e alegro-me porque estou no ângulo perfeito para me ver.
Para o ver, dentro da forma perfeita de uma barriga que me faz mãe.
Nunca como agora tive tanto orgulho nas minhas formas. Esta é a barriga da minha vida.
Passo a mão em sussurros ondulantes que vão falando baixinho para a minha pele materna. Para a barriga.
Sou uma mulher que, pelo que vejo no espelho, é a mãe perfeita.
Que me asfixia.



Está uma mosca na parede que não se mexe.
A água não vem.



Abraça-me…
- Estou preparado para o que decidires. A minha vontade é viver contigo para sempre. Com vocês. Fazer com que resulte. Não quero impor a minha vontade nesta decisão, mas também não me quero desresponsabilizar. Claro que tenho dúvidas… Mas estou preocupado com o tempo... Temos que decidir rápido...

(Vou pegar neste cinzeiro e vou atirá-lo à tua cara. Quero que morras tu, em vez dele.
Que sabes? Que dizes? Ele é meu, tu não o sentes. Não podes saber.
E não acredito por um segundo que não queiras fugir. Sinto-te cobarde.
Abraça-me!)



Não consigo pensar noutra coisa. Salva-me. O que farias se fosse contigo? Toda a vida contra e agora penso em…
- Conheço-te. Fazes parte de mim, amiga. Não sigas… Tu não estás preparada. Tudo se esquece com o tempo e eu vou estar lá contigo. Não estão preparados, vocês.

(Alguém vai contra alguém atrás dela. Alguma coisa cai e ficam três - talvez quatro - pedaços disformes e sujos. Barulho. Café no chão, na roupa - na pele - e um “desculpe” para o ar. Bem feito! Puta! Como me trais assim?)



O espelho de novo.
As contas. Dinheiro.
A barriga, vista de lado. A mão, em círculos em cima da mãe.
Juntos, temos mais condições que muitos casais alguma vez terão.
- Condições? Cala-te! A minha economia é a da dor… apenas a da dor. Deixa-me em paz a vê-lo...

(Há dias que não penso noutra coisa, apenas nisto, que me consome.
Na rua, no trabalho, vejo que me observam e sabem no que penso, no meu medo. Na minha pouca coragem.
Não valho nada se pensar nas condições. Não é maternal.
O meu leite seria suficiente)



Água em cima da mosca que está na parede, será que a faz voar? Quero ter água nestas mãos em forma de concha. Pena ter mãos mas não ter a água. Esta mosca preta, também o faria?



Desculpa desiludir-te. Tinha que falar contigo, não sei como aconteceu.
Mas o pior não é isso… O pior é agora.
O pior é o que sinto, agora.
Ele não é o homem da minha vida e eu sei-o.
- Faz. Também o fiz na tua idade.

(Uma mãe é um exemplo, um modelo.
A minha é. Era.
Porque me disse? Porque me sinto tão mal por sabê-lo?
Porque o fez?
Um irmão…)



Está uma mosca na parede que não se mexe.
A água não vem. E eu quero limpar-me.

Água finalmente. Água.
O Tiago teria hoje 4 anos.
Eu faria de novo.
Eu. A mosca acabou de voar e eu sou livre. Feliz.

E Domingo digo que sim.

Segunda-feira, Janeiro 29, 2007

As cadeiras

Ao cabo de quatro meses de ansiedade, poucas noites bem dormidas e inúmeras actividades preparatórias, Marcelo Ferrer, Nuria Ferrer e o filho, cujo nome não me ocorre agora, cumpriram, passo a passo e com estupenda precisão alemã, a viagem de regresso.

Foram trinta e quatro anos de saudade e esforço, naquele país frio e distante que nunca soube compreender nem aceitar o espírito latino do casal. Nunca hão-de lá voltar. Quando chegou o dia do regresso, Marcelo, Nuria e o filho esperaram, nervosos, pela noite, desprenderam-se do chão, e, confiantes, colocaram-se perna ante perna, pesadas barras de metal, a caminho de casa.

Com um orgulho e júbilo desmedidos, Marcelo sabe agora, feliz, onde vai passar o resto dos seus dias. Com a família, no bairro La Latina em Madrid, dando assento a gente alegre como eles.

Madrid, Janeiro 2007

Sexta-feira, Janeiro 26, 2007

não testemunhado #1

Estou a comer os cereais, irritado por não terem açucar, e penso:
"A árvore caíu e ninguém viu. Fez barulho? Ouvimos o que não testemunhamos?"

Que reflexão limitada. Coisa básica. Fazias melhor se saísses já e descesses as escadas a correr...

Mas depois, estou na aula e não consigo largar a dúvida.


Ouve bem:

O filme a ser projectado para o vazio. O guião é respeitado?
O velho que morreu sozinho na cama. Sofreu?
Finalmente consegui, só que eles não viram. Conta?
O velório da minha morte cheio. Estou feliz por ter tanta gente?

A vida dele eram aquelas moedas e o acordeão.
Ele ri-se comovido, agora que largou tudo. Chora, até. Mas o que foi?


Madrid, Janeiro 2007

É então que escrevo a fórmula do ROE, onde Net Income se divide por Total Equity.

Quarta-feira, Janeiro 24, 2007

Reconstituição histórica

Que bem sabe ir conhecendo pessoas de todo o mundo.

Quando olho para um mexicano vejo as memórias de espanhóis lutando com incrédulos aztecas, vejo Montezuma contra Cortez, a pólvora antiga contra a seta e a pena. Conheço um chinês e visito aldeias filhas de uma revolução cultural que esvazia - um vazio em honra do líder e da grande nação. Apresentam-me uma libanesa e navego num barco fenício, negociando com os maiores comerciantes da história, em cidades que já não existem. Apresento um russo a uma ucraniana e assustam-me a fome, o frio, a morte que ele sabe que provocou nela. Descrubo Napoleão em cada francês, Gandhi em cada indiano, Nefertiti em cada egípcia, e às vezes, um assustado Abraham Lincoln em cada americano.

E eu, como já não me surpreendo comigo próprio, acerto o despertador para a hora em que nasci de modo a que acordar se transforme também numa reconstituição histórica.


Domingo, Janeiro 21, 2007

os olhos dos outros

Desde pequeno que gosto de me colocar nos olhos dos outros. No autocarro, na rua. Onde seja.
É uma coisa muito física, não comeces já a divagar. Mudar o ângulo de visão do momento, alterar as perspectivas, as luzes, ver-me a mim próprio através de um novo olhar temporário. Olhar roubado. Muito físico.

O exercício termina sempre que, distraído, tento ir além do físico. Porque aí, invariavelmente, coloco os meus pensamentos nos deles. Parece-me que para me substituir nos pensamentos de quem vejo é preciso muito mais elasticidade e treino. E também é preciso conhecer-lhes os passados.

Vou treinar.

Madrid, Janeiro 2007

- I would like to marry you...

What? Look at me! Do I look stupid to you?!

E casaram. Em Madrid.
Longe de tudo.

Segunda-feira, Janeiro 15, 2007

Afinal não era

Algumas músicas, quando as ouço, provocam algo no universo e todas as coisas ficam mais bonitas e menos complicadas. Fico mais leve e também mais corajoso. Depois vou à janela e vejo que fui só eu que.

Por mais alguns instantes continuo a sorrir.

Damian Marley, Welcome To Jamrock Beautiful (feat. Bobby Brown)

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Há noites em que não consigo decidir se me apetece ler, ver prison break ou voltar a ouvir a Patética. Algumas vezes decido tentar estudar e nada faz sentido. Não o que estou a estudar, claro.

Nessas noites costumo vir visitar-te...

Terça-feira, Janeiro 09, 2007

Melhoras visíveis

Já passou quase um ano desde que deixei Angola e as coisas de que me lembro parecem-me melhores.
Pode ser o efeito Madrid.

Lembro-me de sinais de crescimento e de progresso económico. Construção.

De mais condições. Sobretudo junto dos jovens e das crianças.
Sim... Tenho memória de melhoras visíveis.

Ou talvez não...



Às vezes gosto de descer as escadas a correr, quando saio de casa.

Sábado, Janeiro 06, 2007

Só as mulheres sabem zangar-se


«Compreendo intimamente a essência amável das mulheres. As suas coquetteries divertem-me, e nos seus gestos e palavras triviais vislumbro sentimentos profundos. Quem nãos as compreende quando levam uma chávena à boca ou ajeitam a saia não as compreenderá nunca. As suas almas caminham como passinhos pequenos nos saltos altos dos botins delicados, e o seu sorriso é a um tempo: um hábito tolo e um pedaço da História do mundo. São encantadores a sua altivez e o seu entendimento limitado, há neles mais charme do que nas obras dos clássicos. Os seus vícios são muitas vezes as melhores virtudes à face da Terra, e quando se zangam, e quando se enfurecem? Só as mulheres sabem zangar-se.»

Robert Walser, Jakob Von Gunten – Um Diário. Trad. Isabel Castro Silva, Relógio D’Água, Lisboa, p.61.

Segunda-feira, Outubro 16, 2006

- Gostas de mim?
Sim. Acho que sim.
- E pensas em mim?
Pois...
- Namoramos?
Não sei... Não. Tenho de inventar a minha vida verdadeira.


Cai, cada dia que passa, uma pétala desta minha amizade.
Amizade fundamental.
Descubro que, como as flores, as amizades também se despem da sua beleza
e do nosso reconhecimento.
Fica a memória. Bonita e decadente
como um jardim velho
orgulhosamente abandonado.
Fica a tristeza pela inevitabilidade.
Tinha que ser assim.

Quinta-feira, Outubro 05, 2006


Alegria e esperança nas crianças do Lubango, uma cidade onde se respira melhor.

Quinta-feira, Setembro 14, 2006


Um país a dormir alheado do petróleo.
Alheado das plataformas e distante dos dólares que não chega a ver.

Quinta-feira, Setembro 07, 2006


Há uma bata branca por cada criança que estuda em Angola.
Batas que criam um numeroso exército.
Soldados lentos e descrentes. Mas que riem e gritam e saltam com o branco que esconde as suas vergonhas.

Não há cor no céu do Cassimbo.
O ar é pesado e o cinzento mistura-se, mais do que o habitual, na matéria das coisas.

O esgotamento torna-se mais rápido.


Há lojas em Luanda que apetecem.
Normalmente, cativavam-me por serem originais e pela certa dignidade que nelas observava.

Depois, sempre que me aventurava, apetecia-me sair.

Sexta-feira, Setembro 01, 2006


O jindungo pica.
A Marta adoça.

Fotografia de Marta Lança

Sábado, Agosto 26, 2006



Angola é um país do mar, que respira o Atlântico.
As praias são quase sempre lugares espectaculares.

Infelizmente - é uma insistência nacional - a abundância de recursos naturais não tem os resultados que podia ter… Algumas presenças desta costa de sonho são barcos encalhados na areia, animais mortos e a apodrecer, e, claro, muito lixo.

O horizonte que olhamos tem que ser de esperança?
É fatalmente bonito ou retemperador?

Vai ao morro, interrompe-lhe a memória e pergunta-lhe. Pergunta em África.

Sábado, Abril 22, 2006


Em Angola senti com a mesma frequência tristeza, frustração, alegria e esperança.
No sorriso das crianças que fui encontrando, assustei-me sempre com essa contradição.

Quarta-feira, Abril 19, 2006


Dois olhares em sentidos diferentes. Vê aquele que me olha. O que nunca largarei. 06.04.2006

Terça-feira, Abril 11, 2006



Pescador e pneu à deriva. Barcos imaginários, com a cidade em fundo.
A baía de Luanda guarda águas calmas demais, com pescadores solitários à procura da subsistência.

Sexta-feira, Abril 07, 2006



Em Angola, quando saía de Luanda à descoberta da África inviolada, lembrava-me por vezes da minha rua, do prédio onde vivo, do escritório onde trabalho, da televisão que acendo e apago (e acendo e apago, e acendo e apago), do restaurante onde almoço, do cinema onde me abstraio, do café onde me despacho, do carro, da gata, do cacifo, da chávena, do ticket, das chaves. E dos amigos. E dos pais. De todos os elementos da minha magna vida diária.

Mas afinal, a dimensão da minha existência é mínima. Felizmente. Sobrevivo mais um pouco sempre que o descubro.

Segunda-feira, Março 20, 2006



Mercadorias mais volumosas que valiosas, assentam quietas no alto das cabeças de mulheres. Bebés carregados às costas em sonos constantes.

Duas visões recorrentes em Angola, juntas num equilíbrio tão sensível como os seus elementos.

Sexta-feira, Março 17, 2006

Na urgência de uma resposta a um amigo, um blog criado.
E a promessa de criar algo rapidamente.


"As duas cidades gémeas não são iguais, porque nada do que acontece em Valdrada é simétrico: para cada face ou gesto, há uma face ou gesto correspondido invertido ponto por ponto no espelho. As duas Valdradas vivem uma para a outra, olhando-se nos olhos continuamente, mas sem se amar."

Italo calvino, "As Cidades Invisíveis"