Gestos
– Mas nunca lhe perguntei isso – lembrei-lhe, enquanto passava preguiçosamente a mão pela cabeça do cão – e se tivesse perguntado a resposta teria sido sim.
– Olha que ela a mim nunca mo escondeu. Queres outro palmier? – timidamente, o meu avô alcançava outro palmier – ela dizia-me e eu acreditava.
– Não obrigado, come tu – respondi-lhe, alertando depois – não tenho a certeza se ela te dizia tudo. – a tarde passava lenta e o calor esforçava-nos sobre a limonada mais depressa que gostaríamos. O cão, preguiçoso, dividia-se entre adormecer e pedir mais festas.
E o meu avô: – A gente não tinha segredos. Lembras-te dos teus primos? Ela sempre os detestou – um aroma familiar chegava lentamente da cozinha, insinuando memórias distantes – hmmm ora aí estão os pudins… lembras-te que bem ela os fazia?
– Sim! Mas nunca os comi com o mesmo gosto do meu pai.
– Ahhh… ele comia-os aos pares. Três de uma vez!
À medida que a tarde passava, rotineira – sempre e outra vez Quinta-feira –, pensei em como o tempo é violento, em como eventualmente nos apaga, a nós e a tudo o que gostamos. O tempo, irreversível, apagando tudo excepto as marcas.
E o meu avô: – E o nosso Benfica, lá vai, né?
Neto Pedro e avô Álvaro, conversando por gestos e expressões, sobre Gracinda, a avó querida.

– Olha que ela a mim nunca mo escondeu. Queres outro palmier? – timidamente, o meu avô alcançava outro palmier – ela dizia-me e eu acreditava.
– Não obrigado, come tu – respondi-lhe, alertando depois – não tenho a certeza se ela te dizia tudo. – a tarde passava lenta e o calor esforçava-nos sobre a limonada mais depressa que gostaríamos. O cão, preguiçoso, dividia-se entre adormecer e pedir mais festas.
E o meu avô: – A gente não tinha segredos. Lembras-te dos teus primos? Ela sempre os detestou – um aroma familiar chegava lentamente da cozinha, insinuando memórias distantes – hmmm ora aí estão os pudins… lembras-te que bem ela os fazia?
– Sim! Mas nunca os comi com o mesmo gosto do meu pai.
– Ahhh… ele comia-os aos pares. Três de uma vez!
À medida que a tarde passava, rotineira – sempre e outra vez Quinta-feira –, pensei em como o tempo é violento, em como eventualmente nos apaga, a nós e a tudo o que gostamos. O tempo, irreversível, apagando tudo excepto as marcas.
E o meu avô: – E o nosso Benfica, lá vai, né?
Neto Pedro e avô Álvaro, conversando por gestos e expressões, sobre Gracinda, a avó querida.


2 abraço(s):
há marcas e marcas... há ir e voltar...
Mentira! Nunca comi três pudins duma vez...Como gostei de lêr...
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