sexta-feira, maio 04, 2007

Gestos

– Mas nunca lhe perguntei isso – lembrei-lhe, enquanto passava preguiçosamente a mão pela cabeça do cão – e se tivesse perguntado a resposta teria sido sim.

– Olha que ela a mim nunca mo escondeu. Queres outro palmier? – timidamente, o meu avô alcançava outro palmier – ela dizia-me e eu acreditava.

– Não obrigado, come tu – respondi-lhe, alertando depois – não tenho a certeza se ela te dizia tudo. – a tarde passava lenta e o calor esforçava-nos sobre a limonada mais depressa que gostaríamos. O cão, preguiçoso, dividia-se entre adormecer e pedir mais festas.

E o meu avô: – A gente não tinha segredos. Lembras-te dos teus primos? Ela sempre os detestou – um aroma familiar chegava lentamente da cozinha, insinuando memórias distantes – hmmm ora aí estão os pudins… lembras-te que bem ela os fazia?

– Sim! Mas nunca os comi com o mesmo gosto do meu pai.

– Ahhh… ele comia-os aos pares. Três de uma vez!

À medida que a tarde passava, rotineira – sempre e outra vez Quinta-feira –, pensei em como o tempo é violento, em como eventualmente nos apaga, a nós e a tudo o que gostamos. O tempo, irreversível, apagando tudo excepto as marcas.

E o meu avô: – E o nosso Benfica, lá vai, né?


Neto Pedro e avô Álvaro, conversando por gestos e expressões, sobre Gracinda, a avó querida.






2 abraço(s):

Anonymous Anónimo said...

há marcas e marcas... há ir e voltar...

5:09 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Mentira! Nunca comi três pudins duma vez...Como gostei de lêr...

2:55 p.m.  

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